Archive for the 'livros' Category

A Princesa, os bombons e o concurso de aviões

28/09/2009

de Antoniorrobles (1895-1983)

portada

Este é o conto da Princesinha dos Bonecos, que disse que se casaria com o aviador que realizasse a melhor proeza nos aeroplanos de brincar.

(continua)

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Livros “a la calle” VII

12/06/2009
Tinha conseguido deter por completo as lágrimas de Elsi. A menina passou o antebraço pelos olhos para limpar os seus restos. De vez em quando pousava o seu olhar no chão, aos seus pés, mas era sempre para retomar o rumo que conduzia ao rosto do carteiro de bonecas.
A tristeza era o último bastião do seu desassossego.
– Por que não vai buscar a carta?
– Já é tarde, lamento. Há já algum tempo que terminou o meu horário de trabalho, e tu também deves ir cedo para casa, não é?
Elsi olhou o relógio da torre.
– Os ponteiros ainda não estão juntos – assinalou -. Mas sim, falta pouco. A que horas começa o seu trabalho amanhã?
– A que horas desces para vir o parque?
– Quando os dois ponteiros estão assim – pôs os dedos indicadores das suas mãos num determinado ângulo para demonstrar.
– Ah! Muito bem! – exclamou ele -. É justamente à hora que eu começo. Amanhã serás a primeira.
– E vai trazer-me a carta de Brígida?
Por nada no mundo, por criança que fosse, ia esquecer-se dessa carta. Chegaria a casa e passaria o resto do dia a pensar nela. Almoçaria, jantaria e deitar-se-ia sem afastá-la da sua mente. Não havia mais nada. Sem Brígida, já só lhe restava a carta.
Um pequeno grande mundo. Franz Kafka estava convencido de que (…)
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Jordi Sierra i Fabra (1947), Kafka y la muñeca viajera  

Livros “a la calle” – VI

10/06/2009

Chegou a altura de explicar esta secção dos “Livros a la calle”, explicando também a sua ausência durante algum tempo: os excertos dos textos aqui traduzidos são excertos ilustrados de livros que estão nos vagões do metro de Madrid. Ao acaso, sento-me (ou não) e procuro à minha volta o A4 que me calha nesse dia. É muito interessante, porque encontro-me quase sempre com um texto bastante bom, capaz de me transportar para imaginários bem longe do Metro de Madrid. Pego no IPhone e traduzo directamente.

A razão por que este capítulo se ausentou durante um tempo foi tão simples como ter encontrado uma colega que me passou a dar boleia (adeus metro!), mas por pouco tempo porque entretanto esta colega já se reformou (um grande beijo querida Isabel Ortega!).

Assim voltei e ofereço-vos este fantástico MORRO, tradução (muito) livre do dicionário María Moliner. Palavra riquíssima que encerra tantos significados, para os quais temos expressões portuguesas bastante curiosas.

Espero que gostem!

morro 1 m.(sing.o pl.)

* Focinho de animais
*Lábios de pessoa quando volumosos. Lábios.
2*Saliência semelhante a um focinho, em qualquer coisa (frente de um carro, por exemplo)
3*Monte ou penhasco pequeno e arredondado
4 Penhasco na costa, que serve de referência aos navegantes.
5*Pedra pequena e redonda
beber a morro inf. *Beber de um recipiente ou de uma torneira aplicando os lábios directamente (beber do gargalo)
caer[o darse] de morros inf. Bater com a cara ao cair ou tropeçar
darse el morro vulg. Beijar-se na boca (um casal)
echarle morro inf. Mostrar descaramento em relação a algo:  ‘Le echaron morro y se colaron en el autobús’ (ter lata: “infiltraram-se no autocarro com uma lata…).
estar de morro[s] o poner morro (com alguém) estar zangado e mostrá-lo com gestos ou atitudes (estar de trombas)
por el morro 1inf. Grátis ou sem ter feito nenhum esforço: ‘Aprobó el examen por el morro’ (passou no exame com uma perna às costas). 2inf. Com muito descaramento (com uma pinta…).
sobar el morro[o los morros] inf. Bater em alguém, dar-lhe uma carga de porrada, dar uma sova.
tener morro inf. Ter descaramento ou não ter vergonha. Ter cara de pau, ter lata.
tener alguien un morro que se lo pisa inf. Frase hiperbólica equivalente a tener morro. (como os elefantes: ter uma tromba tão grande que a pisa, mas no sentido de ter descaramento, lata)
torcer el morro inf. Pôr trombas, pôr má cara, torcer o nariz.
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María Moliner (1900-1981)
Diccionario de uso del español

O fogo purificador

20/05/2009

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Crematorio podia ser o Boletim de Outono do Banco de Espanha. Publicado em 2007, antes da bolha imobiliária espanhola rebentar todo o seu pus pela paisagem económica, Crematorio, apesar de carecer de um tom bíblico, é um livro de profecias. Está lá tudo, ou melhor, está lá a Espanha toda dos últimos trinta anos. A Espanha do futuro. Aquela que misturou cocaína com moradias de luxo. Bem vistas as coisas, só podia dar para o torto. E para falar do futuro nada melhor do que falar de um morto: Matías Bertomeu, o revolucionário que só teve direito a uma transição, o comunista que descobriu que a democracia é a forma mais perfeita de acabar com a política. Este é o homem que vai a queimar.

Em Espanha, como lembrou María Zambrano, quando o tempo histórico se complica, todos voltam ao tempo doméstico. Depois de uma grande aventura, sempre se regressa a casa. É a história da Odisseia, e por isso é uma história trágica porque continua a ser a história da Espanha moderna. Quando a coisa aperta, Espanha fecha-se na família, onde o sangue corre em privado. E Crematorio é um romance da vida familiar. Não admira que as coisas ardam. 

Por vezes, é necessário queimar tudo para que a beleza nasça. Um fogo purificador ao som da música de Bach. Ou, o que vai dar ao mesmo, o que nos desinfecta por fora e o que nos incendeia por dentro. Rafael Chirbes, o autor de tudo isto, é um tipo duro: prefere o Manifesto do Partido Comunista ao Tempo Perdido de Proust.

Se tudo correr bem esta noite…

01/05/2009

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Há três tipos de escritores argentinos: os mortos, tipo Borges; os vivos, tipo Aira; e os mortos-vivos, tipo Rodolfo Walsh.

No dia 25 de Março de 1977 Rodolfo Walsh foi sequestrado por um Grupo de Tareas e desde esse dia continua desaparecido. Um dia antes tinha terminado de escrever a sua última obra: Carta Abierta de un Escritor a la Junta Militar.

Na noite de 9 de Junho de 1956 um grupo de homens reúne-se para ouvir o combate de boxe que decidiria o titulo sul-americano de pesos médios entre o campeão Lausse e o chileno Loayza. Nessa mesma noite, os generais Tanco e Valle revoltam-se contra o governo que em Setembro de 1955 tinha destituído Perón. Os homens que escutavam o combate de boxe acabaram fuzilados numa lixeira da cidade José León Suárez, nos arredores de Buenos Aires. A isto chamou-se Operación Masacre. Sete dos fuzilados sobreviveram.

Rodolfo Walsh, que tinha visto a revolução dessa noite através de uma persiana, decidiu contar a história inverosímil dos sete fuzilados que vivem. Não sei se lhe saiu jornalismo ou literatura, mas Operación Masacre é um dos livros mais cheios de vida que há por aí. Ensina-nos uma coisa muito importante, ensina-nos o que é o heroísmo, isto é, que quando um homem morre com um tiro nas tripas não se põe a gritar “Viva a Pátria”, mas antes “Não me deixem sozinho seus filhos da puta”. Foi o que Rodolfo Walsh escutou essa noite, uma noite em que o argentino Eduardo Lausse derrotou  Humberto Loayza por KO.

Livros “a la calle” – V

24/02/2009

– Senhores passageiros, em nome do comandante Flippo, que, por certo, se reincorpora hoje ao serviço depois da sua recente operação às cataratas, vos damos as boas-vindas a bordo do voo 404 com destino a Madrid e vos desejamos uma feliz viagem. A duração aproximada do voo será de cinquenta minutos e voaremos a uma altitude etcetera, etcetera.


Mais habituados do que eu, os parcos passageiros que a essa hora faziam uso da ponte aérea apertaram os cintos de segurança e guardaram atrás da orelha as beatas dos cigarros que acabavam de apagar.

 

Troaram os motores e o avião começou a caminhar com um inquietante balanço que me fez pensar que se se abanava assim em terra, o que não faria pelos ares de Espanha. Olhei pela janela para ver se por um milagre do céu já estávamos em Madrid, mas só distingui a silhueta desfocada do terminal do Prat que retrocedia na escuridão e não pude deixar de me perguntar aquilo que talvez algum ávido leitor esteja já a indagar, isto é, o que fazia um estroina como eu (…)

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Eduardo Mendoza (1943)

El laberinto de las aceitunas

Livros “a la calle” – IV

09/01/2009

Uma onda de amor que
vai do meu corpo ao teu é
uma humana canção
Não canta, voa entre
a tua boca e o meu verão
sob o teu sol. O calendário não
tem esta noite ou data no seu papel.
O teu manancial
cai como vinho no copo
e o mundo cala os seus desastres.
Obrigado, mundo, por não ser mais do que mundo
e nenhuma outra coisa.
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Juan Gelman (1930)
Mundar

Livros “a la calle” – III

08/01/2009

Filomeno, nem mais nem menos, assim como soa, com todo o direito, um desses nomes que não se podem rejeitar a não ser que se renuncie a si próprio: indeclinável pela lei do baptismo e do Registo Civil, também pela herança, porque o meu avô paterno assim se chamava, Filomeno; e o meu pai empenhou-se em perpetuar, por assim dizer, aquela lembrança do passado, pelo respeito que tinha à memória do seu progenitor, de quem tinha recebido, segundo ele, tudo o que há de bom no mundo e até aquilo que lhe tinha acontecido, com absoluta injustiça no que à minha mãe diz respeito, que não foi mau acontecimento, ele casar-se com ela, ainda que pouco duradouro: como que decidiu abandonar esta vida, a minha mãe quero dizer, quando me trouxe a ela.

Isto foi já há muito tempo, e a ciência carecia então dos remédios de que  dispõem agora as parturientes com febres puerperais. Ah, se eu tivesse nascido quarenta anos depois, só quarenta anos! Que teria sido de mim? Ver-me-ia na necessidade de escrever estas memórias? Claro que não; mas, em troca, tinham-me (…)

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Gonzalo Torrente Ballester (1910-1999)

Filomeno, a mi pesar

Livros “a la calle” – II

08/01/2009

Quando recebi o telegrama a comunicar a morte do pobre Augusto, e soube depois de todas as circunstancias que a rodearam, fiquei a pensar se tinha ou não feito bem em dizer-lhe o que lhe disse naquela tarde em que veio visitar-me e consultar-me sobre o seu propósito de se suicidar. E até me arrependi de o ter matado. Cheguei a pensar que ele tinha razão e que o devia ter deixado levar a sua avante, suicidando-se. E pensei se o poderia ressuscitar.

“Sim – disse para comigo -, vou ressuscitá-lo e depois que faça o que lhe der na gana, que se suicide se é esse o seu capricho.” E com esta ideia de o ressuscitar adormeci.

Pouco depois de ter adormecido, Augusto apareceu-me em sonhos. Estava branco, com a brancura de uma nuvem, e os seus contornos como que iluminados por um sol poente. Olhou-me fixamente e disse-me:

– Aqui estou outra vez!

– Ao que vens? – disse-lhe.

– A despedir-me de si, Dom Miguel, a despedir-me de si até à eternidade e a ordenar-lhe, precisamente, a ordenar-lhe, não a pedir-lhe, a ordenar-lhe que escreva você a ‘nivola’ das minhas aventuras (…)

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Miguel de Unamuno (1864-1936)

Niebla

Livros “a la calle” – I

07/01/2009

A minha avó tinha o cabelo branco, numa onda encrespada sobre a face, que lhe dava um certo ar colérico. Trazia quase sempre uma bengala de bambu com cabo de ouro, que não lhe fazia falta nenhuma, porque era firme como um cavalo. Revendo antigas fotografias creio descobrir naquela cara espessa, maciça e branca, naqueles olhos cinzentos rodeados de um círculo enegrecido, um resplendor de Borja e também de mim. Julgo que Borja herdou a sua galhardia, a sua absoluta falta de piedade. Eu, talvez, esta grande tristeza.

As mãos da minha avó, ossudas e de nodosidades salientes, não privadas de beleza, estavam salpicadas de manchas de cor café. No indicador e no anelar da mão direita dançavam dois enormes brilhantes sujos. Depois dos almoços arrastava a sua cadeira de baloiço até à janela do seu aposento (a bruma, o vento abrasador e húmido desgarrando-se nos silvados, ou empurrando as folhas castanhas para debaixo das amendoeiras; as avultadas nuvens de chumbo apagando o brilho verde do mar). 

E, dali, com os seus velhos binóculos de teatro incrustados de safiras falsas, esquadrinhava as casas brancas da encosta, onde (…)

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Ana María Matute (1926)

Primera Memoria