Archive for the 'HORA PENINSULAR' Category

Pequenas Grandes Diferenças

24/11/2009

Ninguém suporta que um estrangeiro diga mal do seu país, e menos ainda um adoptado física ou emocionalmente.

Jamais levantarei a voz para dizer mal desta terra que me acolhe, mas não posso calar as diferenças, sobretudo as que me custam mais esforço de integração.

Não somos tão parecidos como se pensa, mas há que olhar o lado bom das coisas que a vida nos oferece, um outro país por exemplo, nem melhor, nem pior… apenas diferente (e com a inegável desvantagem de não ser o nosso).

Use-se para isso a capacidade de adaptação (característica da idade adulta, de quem já aprendeu que  não se pode ter tudo o que se quer), alguma abertura e a humildade de saber que ninguém é perfeito e que podemos sempre aprender dos outros e melhorar a nossa forma de estar.

Tomemos os espanhóis (especialmente os madrilenos) como exemplo, que dirão que o seu país é o melhor do mundo. É o mesmo país onde eu encontro coisas às quais não me consigo habituar por muito que me esforce.

Vejamos estas pequenas diferenças:

– o falar alto e todos ao mesmo tempo, as dobragens, a musica espanhola, a sujidade dos bares, o mandar beatas ou cascas de pevides para o chão, a falta de “multibancos”, os cacifos com chave nas piscinas municipais, a cerveja Mahou, o reclamar sempre que se queira ser bem servido, um gosto muito “especial” sobretudo em acessórios e overmakup, a brejeirice na linguagem me cago en la leche, o machismo, a maledicência, a opinião mascarada de jornalismo e a falta de informação séria e imparcial, a espanholização convicta das palavras e nomes em inglês, o mau cheiro que fica nas mãos quando se anda de metro, a soberbia imperialista em relação ao resto do mundo, os preconceitos raciais, o engavetamento estrito das classes sociais, a omnipresença da Igreja Católica, o terrorismo e os ideais nacionalistas e separatistas, a programação televisiva, os intervalos de 15 minutos, os anúncios a medicamentos para hemorróidas, gases, diarréia, chulé, sequidão vaginal e outros males para os quais se vende muitas unções, os assuntos do corazón, a ausência de autocrítica, o enraizamento fechado a outras culturas, a taxa de activação de chamadas telefónicas, o café, o pão, as pessoas (bastam duas) que ocupam todo o passeio tornando impossível ultrapassá-las (reflexo da falta de “Atenção pelo Outro” em geral, para não dizer de civismo), o humor, os Verões quentes, secos e abafados, a sesta…

Há no entanto outras coisas que se adoptam imediatamente e sem as quais já não saberíamos viver (três linhas tentam superar tudo o que se disse antes):

– o aquecimento central, a qualidade da água da torneira, uma esquerda deveras socialista, a jornada de trabalho intensiva durante os 4 meses de Verão, o preço dos carros e do tabaco, o aperitivo e a tapa, a alegria no Natal, a gastronomia, os ordenados, o uso diário do humidificador, a oferta cultural e comercial, a limpeza das ruas, a meteorologia do Telediário, o reflexo das 4 Estações na paisagem, os mercados com produtos de qualidade, a vida de bairro, as pessoas especiais que se encontram e se tornam o nosso melhor apoio nesse sítio universal que é a amizade…

Tal como acontece com as pessoas, também os países que têm mais dinheiro não são, necessariamente, os mais ricos.

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HORA PENINSULAR

06/10/2009

Como é fácil de perceber, este blog foi agradavelmente invadido pela Hora Peninsular.

Tal a presença desta rubrica que decidimos independentizá-la e criar um blog só para ela e para o seu autor.

http://horapeninsular.wordpress.com/

Boa sorte Zé!

Hora Peninsular

O morto vivo

27/09/2009

_peixeirada_1

Imagem obtida pessoalmente por aqueles que escrevem, no passado dia 22 de agosto de 2009, no  comício da rentrée do denominado CDS/PP, ao qual assistiam meia centena de gatos pingados na Praça do Peixe, em Aveiro, e cuja única mensagem que se retém, passado mais de um mês, é um exclamativo meus amigos e minhas amigas acrescentado ao final de cada frase pelo senhor que aparece na citada imagem. Uma criança que acompanhava aqueles que escrevem perguntou: o que é isto? O mesmo perguntamos nós à vista destes resultados.

Resultados

25/09/2009

dado

Os resultados de umas eleições não são uma roleta russa. São um jogo de dados. Os dados são, desde sempre, excelentes armas de arremesso. Os primeiros dados, os astrágalos, eram feitos com o tálus, o osso do pé que, articulado com a tíbia e a fíbula, forma o tornozelo. Ao jogá-lo, para além de se ter os pés bem assentes na terra, os seus resultados eram sempre um osso duro de roer.

A reputação dos dados também chegou ao xadrez. Alfonso X, o Sábio, introduziu o dado e, consequentemente, a sorte e o azar, no Grande Acedrex, devidamente ilustrado no códice “Libro de los Juegos de Ajedrez, Dados y Tablas”. O argumento era tornar o jogo más fácil e rápido, ou seja, nada de disputas homéricas.

À vista da imagem inserida mais acima, os dados também podem ser feitos de pedra. Em concreto, pedras da calçada. Calçada à portuguesa, como não podia deixar de ser. Continua a ser um brinquedo, como os astrágalos gregos, mas com um forte valor acrescentado: pode-se atirar para outro lado que não seja para cima de uma mesa. Não dizem que o voto é uma arma?

O homem medíocre

23/09/2009

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Até agora não existiu uma democracia efectiva. Os regimes que adoptaram semelhante nome foram ficções. As pretensas democracias de todos os tempos foram confabulações de profissionais para aproveitar-se das massas e excluir os homens eminentes. Foram sempre medíocracias. A premissa da sua mentira foi a existência de um ‘povo’ capaz de assumir a soberania do Estado. Tal coisa não existe: as massas de pobres e ignorantes não tiveram, até hoje, a capacidade para se governar: mudaram de pastores.

José Ingenieros (1877- 1925) in El hombre mediocre

Tratado político

21/09/2009

tratado político

O absolutismo roubou-nos a liberdade e o moralismo corrompeu-nos. Usamos a liberdade como se esta apenas servisse para derrubar ditaduras e redigimos leis como um casuísta escreveria um tratado de moral. O problema da sociedade portuguesa é que tem apenas um dia que se chama da liberdade, e outros 364 que, por exclusão de partes, seriam de prisão.

Por liberdade deve entender-se uma angustiosa possibilidade de poder, um poder mediante o qual se tem a possibilidade de fazer ou não fazer, mas com a profunda subtileza de que se não se fizer, isso em nada implicará uma diminuição de poder. No fundo, a liberdade é poder ser impotente. Em Portugal é diferente: a liberdade depende do Estado, isto é, do poder, o que é uma contradição, já que o objectivo último do Estado não é a liberdade, mas a erradicação do medo. E isto nada tem que ver com a asfixia democrática. Tem que ver com a própria fundação do Estado que, longe dos tais 800 anos de história, parece ter quatro séculos de fatalidade. Bem feitas as contas, trinta e cinco anos não são nada.

Dizia Antero que há em todos nós, por mais modernos que queiramos ser, há lá oculto, dissimulado, mas não inteiramente morto, um beato, um fanático ou um jesuíta. Preferimos a moral à ética, da mesma forma que preferimos o julgamento à acção. Produzimos leis em barda, esquecendo-nos que determinando todas as coisas mediante a aplicação da lei, mais depressa estimulamos os vícios que os corrigimos. Um moralista do Século XVII não faria melhor figura.

Agora, uma senhora vem falar-nos verdade. Tendo em conta que o mundo da política tem muitas coisas em comum com a litigação judicial, nas argumentações da política não reina o logos, mas sim o ethos e o pathos. Creio que o disse Aristóteles. Não se trata de conhecer a verdade, mas de ganhar o jogo. Daí a conclusão ser silogística: se alguém em política diz a verdade, é porque está a mentir.

Partidas e Chegadas

02/09/2009

Restaurante_Bar_Barajas

 Restaurante e Bar do Aeroporto de Madrid-Barajas no ano de 1931.

Alexandre Herculano

Terminal T2 do Aeroporto de Madrid-Barajas no ano de 2009. Em primeiro plano o Alexandre Herculano, um Airbus A-320 da TAP Air Portugal.

Um arquitecto catalão em Madrid

06/08/2009

Girasol_1

O edifício El Girasol é a única construção de José Antonio Coderch em Madrid. Fica ali assim como quem sai da loja da Chanel e entra na do Jimmy Choo. Trata-se, portanto, de apartamentos de luxo. Mas como se fossem casas campestres com vistas para a luz. Coderch, um arquitecto catalão, por isso mediterrânico, utiliza materiais pobres para construir casas para ricos. Nada de mármores, apenas terra cozida. 

São casas íntimas, monásticas, auto-reflexivas, jaulas de habitar, difíceis de ver e fáceis de tocar. São casas tácteis, desenhadas em Braille solar. Por isso chama-se Girassol, porque deixa entrar a luz até aos ossos. Mas devia chamar-se dente de serra, porque a sua fachada cheia de dentros e foras corta em pedaços a ortogonalidade do Bairro Salamanca, projecção urbana de Carlos María de Castro, engenheiro que fez de Madrid uma cidade do século XIX. Coderch devolveu-a à intemporalidade.

coderch

Uma casinha, duas casinhas, três casinhas

02/08/2009

duas casinhas

Isto não é uma maqueta. Nem são casas de bonecas. São chalés para ingleses. Não para ingleses ver, mas para ingleses viver. Algures numa serrania de Espanha.

O chalé é uma cruzamento entre uma casa do Monopólio e um mausoléu. Uma casa do Monopólio, porque  se investe tudo o que se tem e o que não se tem para a ter. E um mausoléu, porque com tanto movimento, bancário, quero dizer, acaba-se literalmente por se enterrar nela para todo o sempre.

O grande cagaço português

01/08/2009

cagaço português

Na sexta-feira o jornal do Fernandes e no sábado o jornal do Marcelino deram à capa o grande cagaço português. Pelos vistos, aí pela terrinha vão-se espalhando umas quantas inverdades. Diz-se por aí que aqui na Espanha estamos todos a morrer da tal gripe A. É uma notícia intoxicada. Nos últimos dias, as únicas coisas que realmente matam na Espanha é a ETA e os acidentes de carro. A primeira página do jornal do Fernandes de sexta-feira é pletórica enquanto a rigor científico e interesse geopolítico: Um  terço da gripe A vem de Espanha. Para um País como Portugal que é quase uma ilha, queriam que viesse donde, da caravela portuguesa, a alforreca mais mortífera dos oceanos?