de Antoniorrobles (1895-1983)
Este é o conto da Princesinha dos Bonecos, que disse que se casaria com o aviador que realizasse a melhor proeza nos aeroplanos de brincar.
(continua)
Hearts starve as well as bodies
Jordi Sierra i Fabra (1947), Kafka y la muñeca viajera
Chegou a altura de explicar esta secção dos “Livros a la calle”, explicando também a sua ausência durante algum tempo: os excertos dos textos aqui traduzidos são excertos ilustrados de livros que estão nos vagões do metro de Madrid. Ao acaso, sento-me (ou não) e procuro à minha volta o A4 que me calha nesse dia. É muito interessante, porque encontro-me quase sempre com um texto bastante bom, capaz de me transportar para imaginários bem longe do Metro de Madrid. Pego no IPhone e traduzo directamente.
A razão por que este capítulo se ausentou durante um tempo foi tão simples como ter encontrado uma colega que me passou a dar boleia (adeus metro!), mas por pouco tempo porque entretanto esta colega já se reformou (um grande beijo querida Isabel Ortega!).
Assim voltei e ofereço-vos este fantástico MORRO, tradução (muito) livre do dicionário María Moliner. Palavra riquíssima que encerra tantos significados, para os quais temos expressões portuguesas bastante curiosas.
Espero que gostem!
María Moliner (1900-1981)
Diccionario de uso del español

Crematorio podia ser o Boletim de Outono do Banco de Espanha. Publicado em 2007, antes da bolha imobiliária espanhola rebentar todo o seu pus pela paisagem económica, Crematorio, apesar de carecer de um tom bíblico, é um livro de profecias. Está lá tudo, ou melhor, está lá a Espanha toda dos últimos trinta anos. A Espanha do futuro. Aquela que misturou cocaína com moradias de luxo. Bem vistas as coisas, só podia dar para o torto. E para falar do futuro nada melhor do que falar de um morto: Matías Bertomeu, o revolucionário que só teve direito a uma transição, o comunista que descobriu que a democracia é a forma mais perfeita de acabar com a política. Este é o homem que vai a queimar.
Em Espanha, como lembrou María Zambrano, quando o tempo histórico se complica, todos voltam ao tempo doméstico. Depois de uma grande aventura, sempre se regressa a casa. É a história da Odisseia, e por isso é uma história trágica porque continua a ser a história da Espanha moderna. Quando a coisa aperta, Espanha fecha-se na família, onde o sangue corre em privado. E Crematorio é um romance da vida familiar. Não admira que as coisas ardam.
Por vezes, é necessário queimar tudo para que a beleza nasça. Um fogo purificador ao som da música de Bach. Ou, o que vai dar ao mesmo, o que nos desinfecta por fora e o que nos incendeia por dentro. Rafael Chirbes, o autor de tudo isto, é um tipo duro: prefere o Manifesto do Partido Comunista ao Tempo Perdido de Proust.

Há três tipos de escritores argentinos: os mortos, tipo Borges; os vivos, tipo Aira; e os mortos-vivos, tipo Rodolfo Walsh.
No dia 25 de Março de 1977 Rodolfo Walsh foi sequestrado por um Grupo de Tareas e desde esse dia continua desaparecido. Um dia antes tinha terminado de escrever a sua última obra: Carta Abierta de un Escritor a la Junta Militar.
Na noite de 9 de Junho de 1956 um grupo de homens reúne-se para ouvir o combate de boxe que decidiria o titulo sul-americano de pesos médios entre o campeão Lausse e o chileno Loayza. Nessa mesma noite, os generais Tanco e Valle revoltam-se contra o governo que em Setembro de 1955 tinha destituído Perón. Os homens que escutavam o combate de boxe acabaram fuzilados numa lixeira da cidade José León Suárez, nos arredores de Buenos Aires. A isto chamou-se Operación Masacre. Sete dos fuzilados sobreviveram.
Rodolfo Walsh, que tinha visto a revolução dessa noite através de uma persiana, decidiu contar a história inverosímil dos sete fuzilados que vivem. Não sei se lhe saiu jornalismo ou literatura, mas Operación Masacre é um dos livros mais cheios de vida que há por aí. Ensina-nos uma coisa muito importante, ensina-nos o que é o heroísmo, isto é, que quando um homem morre com um tiro nas tripas não se põe a gritar “Viva a Pátria”, mas antes “Não me deixem sozinho seus filhos da puta”. Foi o que Rodolfo Walsh escutou essa noite, uma noite em que o argentino Eduardo Lausse derrotou Humberto Loayza por KO.
- Senhores passageiros, em nome do comandante Flippo, que, por certo, se reincorpora hoje ao serviço depois da sua recente operação às cataratas, vos damos as boas-vindas a bordo do voo 404 com destino a Madrid e vos desejamos uma feliz viagem. A duração aproximada do voo será de cinquenta minutos e voaremos a uma altitude etcetera, etcetera.
Mais habituados do que eu, os parcos passageiros que a essa hora faziam uso da ponte aérea apertaram os cintos de segurança e guardaram atrás da orelha as beatas dos cigarros que acabavam de apagar.
Troaram os motores e o avião começou a caminhar com um inquietante balanço que me fez pensar que se se abanava assim em terra, o que não faria pelos ares de Espanha. Olhei pela janela para ver se por um milagre do céu já estávamos em Madrid, mas só distingui a silhueta desfocada do terminal do Prat que retrocedia na escuridão e não pude deixar de me perguntar aquilo que talvez algum ávido leitor esteja já a indagar, isto é, o que fazia um estroina como eu (…)
Eduardo Mendoza (1943)
El laberinto de las aceitunas
Juan Gelman (1930)
Mundar
Filomeno, nem mais nem menos, assim como soa, com todo o direito, um desses nomes que não se podem rejeitar a não ser que se renuncie a si próprio: indeclinável pela lei do baptismo e do Registo Civil, também pela herança, porque o meu avô paterno assim se chamava, Filomeno; e o meu pai empenhou-se em perpetuar, por assim dizer, aquela lembrança do passado, pelo respeito que tinha à memória do seu progenitor, de quem tinha recebido, segundo ele, tudo o que há de bom no mundo e até aquilo que lhe tinha acontecido, com absoluta injustiça no que à minha mãe diz respeito, que não foi mau acontecimento, ele casar-se com ela, ainda que pouco duradouro: como que decidiu abandonar esta vida, a minha mãe quero dizer, quando me trouxe a ela.
Isto foi já há muito tempo, e a ciência carecia então dos remédios de que dispõem agora as parturientes com febres puerperais. Ah, se eu tivesse nascido quarenta anos depois, só quarenta anos! Que teria sido de mim? Ver-me-ia na necessidade de escrever estas memórias? Claro que não; mas, em troca, tinham-me (…)

Gonzalo Torrente Ballester (1910-1999)
Filomeno, a mi pesar
Quando recebi o telegrama a comunicar a morte do pobre Augusto, e soube depois de todas as circunstancias que a rodearam, fiquei a pensar se tinha ou não feito bem em dizer-lhe o que lhe disse naquela tarde em que veio visitar-me e consultar-me sobre o seu propósito de se suicidar. E até me arrependi de o ter matado. Cheguei a pensar que ele tinha razão e que o devia ter deixado levar a sua avante, suicidando-se. E pensei se o poderia ressuscitar.
“Sim – disse para comigo -, vou ressuscitá-lo e depois que faça o que lhe der na gana, que se suicide se é esse o seu capricho.” E com esta ideia de o ressuscitar adormeci.
Pouco depois de ter adormecido, Augusto apareceu-me em sonhos. Estava branco, com a brancura de uma nuvem, e os seus contornos como que iluminados por um sol poente. Olhou-me fixamente e disse-me:
- Aqui estou outra vez!
- Ao que vens? – disse-lhe.
- A despedir-me de si, Dom Miguel, a despedir-me de si até à eternidade e a ordenar-lhe, precisamente, a ordenar-lhe, não a pedir-lhe, a ordenar-lhe que escreva você a ‘nivola’ das minhas aventuras (…)

Miguel de Unamuno (1864-1936)
Niebla
A minha avó tinha o cabelo branco, numa onda encrespada sobre a face, que lhe dava um certo ar colérico. Trazia quase sempre uma bengala de bambu com cabo de ouro, que não lhe fazia falta nenhuma, porque era firme como um cavalo. Revendo antigas fotografias creio descobrir naquela cara espessa, maciça e branca, naqueles olhos cinzentos rodeados de um círculo enegrecido, um resplendor de Borja e também de mim. Julgo que Borja herdou a sua galhardia, a sua absoluta falta de piedade. Eu, talvez, esta grande tristeza.
As mãos da minha avó, ossudas e de nodosidades salientes, não privadas de beleza, estavam salpicadas de manchas de cor café. No indicador e no anelar da mão direita dançavam dois enormes brilhantes sujos. Depois dos almoços arrastava a sua cadeira de baloiço até à janela do seu aposento (a bruma, o vento abrasador e húmido desgarrando-se nos silvados, ou empurrando as folhas castanhas para debaixo das amendoeiras; as avultadas nuvens de chumbo apagando o brilho verde do mar).
E, dali, com os seus velhos binóculos de teatro incrustados de safiras falsas, esquadrinhava as casas brancas da encosta, onde (…)

Ana María Matute (1926)
Primera Memoria