Ninguém suporta que um estrangeiro diga mal do seu país, e menos ainda um adoptado física ou emocionalmente.
Jamais levantarei a voz para dizer mal desta terra que me acolhe, mas não posso calar as diferenças, sobretudo as que me custam mais esforço de integração.
Não somos tão parecidos como se pensa, mas há que olhar o lado bom das coisas que a vida nos oferece, um outro país por exemplo, nem melhor, nem pior… apenas diferente (e com a inegável desvantagem de não ser o nosso).
Use-se para isso a capacidade de adaptação (característica da idade adulta, de quem já aprendeu que não se pode ter tudo o que se quer), alguma abertura e a humildade de saber que ninguém é perfeito e que podemos sempre aprender dos outros e melhorar a nossa forma de estar.
Tomemos os espanhóis (especialmente os madrilenos) como exemplo, que dirão que o seu país é o melhor do mundo. É o mesmo país onde eu encontro coisas às quais não me consigo habituar por muito que me esforce.
Vejamos estas pequenas diferenças:
- o falar alto e todos ao mesmo tempo, as dobragens, a musica espanhola, a sujidade dos bares, o mandar beatas ou cascas de pevides para o chão, a falta de “multibancos”, os cacifos com chave nas piscinas municipais, a cerveja Mahou, o reclamar sempre que se queira ser bem servido, um gosto muito “especial” sobretudo em acessórios e overmakup, a brejeirice na linguagem me cago en la leche, o machismo, a maledicência, a opinião mascarada de jornalismo e a falta de informação séria e imparcial, a espanholização convicta das palavras e nomes em inglês, o mau cheiro que fica nas mãos quando se anda de metro, a soberbia imperialista em relação ao resto do mundo, os preconceitos raciais, o engavetamento estrito das classes sociais, a omnipresença da Igreja Católica, o terrorismo e os ideais nacionalistas e separatistas, a programação televisiva, os intervalos de 15 minutos, os anúncios a medicamentos para hemorróidas, gases, diarréia, chulé, sequidão vaginal e outros males para os quais se vende muitas unções, os assuntos do corazón, a ausência de autocrítica, o enraizamento fechado a outras culturas, a taxa de activação de chamadas telefónicas, o café, o pão, as pessoas (bastam duas) que ocupam todo o passeio tornando impossível ultrapassá-las (reflexo da falta de “Atenção pelo Outro” em geral, para não dizer de civismo), o humor, os Verões quentes, secos e abafados, a sesta…
Há no entanto outras coisas que se adoptam imediatamente e sem as quais já não saberíamos viver (três linhas tentam superar tudo o que se disse antes):
- o aquecimento central, a qualidade da água da torneira, uma esquerda deveras socialista, a jornada de trabalho intensiva durante os 4 meses de Verão, o preço dos carros e do tabaco, o aperitivo e a tapa, a alegria no Natal, a gastronomia, os ordenados, o uso diário do humidificador, a oferta cultural e comercial, a limpeza das ruas, a meteorologia do Telediário, o reflexo das 4 Estações na paisagem, os mercados com produtos de qualidade, a vida de bairro, as pessoas especiais que se encontram e se tornam o nosso melhor apoio nesse sítio universal que é a amizade…
Tal como acontece com as pessoas, também os países que têm mais dinheiro não são, necessariamente, os mais ricos.










