
Quando um tipo faz cem anos já não deve fazer muitas contas à vida. E nem sequer se dá já ao trabalho de contar a própria vida. Em vez de escrever memórias, faz filmes.
Manoel de Oliveira é um cineasta profundamente incompreendido. Quanto mais não seja porque ninguém o compreende. Excepção seja feita a esse outro grande cómico português que é João César Monteiro. Nem o Bénard da Costa chega a tanto. E isto, porque ninguém quer ver o que parece óbvio. É mais do que evidente que Oliveira é o maior cómico português de todos os tempos. Analisando a sua obra com olhos de ver, coisa que os críticos não parecem ter, são notórias as influências de Vasco Santana na sua cinematografia, quanto mais não seja por esse pormenor não pouco despiciendo de ambos terem contracenado em A Canção de Lisboa. É claro que Oliveira prefere a Gertrude do Dreyer à Canção de Lisboa do Cottinelli Telmo, mas isso é uma questão de bom gosto, não de estilo: toda a gente prefere a Gertrude do Dreyer à Canção de Lisboa do Cottinelli Telmo. E a tramóia fica definitivamente denunciada quando percebemos incríveis reverberações de A Canção de Lisboa em Os Canibais: cada um à sua maneira, ambos são musicais.
E o que dizer desse ponto alto da comédia à portuguesa que é Vale Abraão? Só assim se podem entender as gargalhadas que escutei de uma sala a abarrotar quando o vi, pela primeira vez, nos Cinemas King. O público pareceu-me incrivelmente bem disposto. E isto tendo em conta que a história se inspira na Madame Bovary.
Manoel de Oliveira sempre foi incompreendido porque sempre todos o levaram demasiado a sério, o que é injusto, para um homem que apenas queria ser como Charlie Chaplin.
Quando um tipo faz cem anos, o que tem trinta e poucos começa a fazer contas à vida. E pensa: já que a minha vida não dá um filme, pelo menos conto os filmes da minha vida. A Caça. Dura apenas 20 minutos. Há vidas que, realmente, duram pouquíssimo.
